À DESCOBERTA DE UMA ESTRELA DIFERENTE

Quinta edição do À Descoberta mostrou maravilhas serranas em experiência única centrada na Covilhã

Em fabuloso fim de semana para a prática da modalidade, o Moto Clube do Porto, com imprescindível apoio da MotoTrofa e do Moto Clube da Covilhã – Lobos da Neve, levou meia centena de mototuristas às portas do paraíso, com surpreendente redescoberta da Estrela. Na 5.ª edição do À Descoberta, com epicentro na Covilhã, tempo para descobrir paisagens únicas, estradas fantásticas, comidas deliciosas e gentes afáveis, sempre com a serra em pano de fundo.

Não há como um fim de semana alongado para aproveitar o mototurismo em todo o seu esplendor. Qualquer destino é bom quando se fala em andar de moto e conhecer novos locais ou revisitar pontos conhecidos. Mas optando pelo mais elevado maciço montanhoso de Portugal Continental, de paisagens variando entre as mais frondosas florestas e a imponente e melancólica aridez nas maiores altitudes, tudo ganha outra dimensão. E se, como anfitriões e guias, estiveram as pessoas que melhor conhecem os cantos à casa, então estão garantidos momentos ímpares de descoberta e diversão, gastronomia e história, paisagens e convívio. Preâmbulo para agradecer todo o apoio aos rejuvenescidos Lobos da Neve, com o presidente Rui Santos (também sócio do MCP) a liderar a alcateia mais motociclística do País que, com ajuda de muitos sócios, incluindo marcante presença do tesoureiro do clube beirão, Filipe Gomes, acolheu de forma calorosa os turistas do Porto. Desde a receção aos participantes, em plena arcada da Câmara Municipal da Covilhã e com direito a atuação de quatro bandas filarmónicas (Covilhã, Crato, Erada e Aldeia Nova do Cabo), prosseguindo com a descoberta da rica e inusitada arte urbana no centro da Covilhã. Tempo para conhecer paredes transformadas pela magia dos pincéis, sprays e outras técnicas de expressão artística, com explicações a cargo dos responsáveis do Wool – Festival de Arte Urbana da Covilhã que ao longo de mais de duas horas desvendaram segredo de algumas obras de artistas portugueses e estrangeiros. Nomes bem conhecidos no meio, como Mr. Dheo, Bordalo II, Draw ou Arm Collective, que geraram enorme impacto nos visitantes, tão grande como a passagem na antiga e bem característica mercearia A Tentadora ou a descoberta da cherovia (pastinaca sativa). Tubérculo que foi de grande importância na alimentação antes da introdução da batata e que a Confraria da Cherovia e do Pastel de Molho defende e promove de forma empenhada. De forma parecida com uma cenoura mas de cor pálida, rica em fibra, ácido fólico, cálcio e vitamina C, tem inúmeras utilizações culinárias, da tempura ao puré, da sopa aos doces. Passando pelo pastel de molho, recheando a finíssima massa de cherovia com carne, em jeito de Pastel de Chaves mas muito mais elegante e menos pesado que todos tiveram oportunidade de provar (e elogiar) durante o passeio pela parte antiga da Covilhã.

Antes do check-in no Sport Hotel, unidade criada pelo grupo Natura IMB Hotels no local do antigo Covilhã Parque Hotel, que abriu propositadamente para acolher o grupo respeitando compromisso assumido, em verdadeira antestreia de novo conceito que incentiva à prática desportiva, sobretudo para quem procura desportos de montanha, tempo ainda para apreciar o por do sol na Torre. Momento único no ponto mais alto de Portugal Continental, com agradável passeata pela subida tornada mítica por muitas etapas velocipédicas da Volta a Portugal.

Das Minas da Panasqueira aos vales glaciares, com passagem… pelo «Stelvio»

Noite bem dormida, energias recuperadas e tempo para o grande dia do À Descoberta – Covilhã 2018, com partida do centro da cidade que contou já com mais de 200 fábricas ligadas aos lanifícios, para, com importante apoio do S. Pedro, oferecendo dia soalheiro mas sem demasiado calor, rumar a quase 200 quilómetros de descoberta. Com boa disposição reinante, em grupo muito divertido e de espetacular ambiente, tempo para a primeira paragem do programa nas Minas da Panasqueira, que chegaram a dar trabalho a mais de 12 mil pessoas durante a I Grande Guerra. Dentro do maior gasómetro do Mundo, um antigo depósito de combustível cuja forma imita os sistemas de iluminação utilizados pelos mineiros, José Luís Campos historiou, de forma conhecedora e apaixonada, mais de um século de exploração mineira, entre documentos e equipamentos, retratando a vida das minas desde a primeira «pedra negra e luzidia» encontrada em 1881 pelo Pescão de Casegas, um carvoeiro que ganhava a vida recolhendo carqueja, giesta e urze. História assente naquele que é considerado o melhor volfrâmio do Mundo, com o maior nível de tungsténio, e que, da utilização nos carros de combate ou nas peças de balística utilizadas para fins bélicos, passou, nos dias que correm, a ser utilizado nas brocas dos dentistas ou nas peças vibratórias dos telemóveis entre muitos outros fins. Contando atualmente com 300 trabalhadores diretos, as Minas da Panasqueira encerram histórias sem fim e revelaram possuir, em meados do século passado, forma única de assistência própria, com cuidados sociais e médicos, proporcionando aos trabalhadores a satisfação de todas as necessidades, desde a escola para os filhos à substituição de lâmpadas, da assistência nos partos à prática desportiva.

Tempo ainda para curta visita à primeira mina perfurada no início do século XX, entremeada com os primeiros petiscos do dia, mirando as impressionantes paisagens, quase lunares, criadas pela terra extraída ao longo de mais de um século de exploração mineira, seguindo-se ligação até Sobral de S. Miguel. Uma das 27 aldeias integrada na Rede das Aldeias do Xisto que apresenta a particularidade de ter executivo composto exclusivamente por mulheres, da Presidente da Junta de Freguesia, Sandra Ferreira, à Secretária, Teresa Costa, e à Tesoureira, Sofia Sobreiro. Que receberam os mototuristas com enorme simpatia e deliciosas picas de bacalhau, espécie de bola de farinha de milho com bacalhau e cebola picada (podem ter petingas ou chouriço), que vão ao forno enrolados em folha de couve. Servidos juntamente com saborosas filhós, feitas já com açúcar na massa, acompanhadas de jeropiga e do pão feito no forno comunitário, com a sabedoria e experiência conferida pelos 81 anos da Ti’Ana. Momento gastronómico que preparou a subida da Serra da Estrela pela vertente menos turística, atravessando estrada rumo à Lagoa Comprida que, pelo desenho e curvas, qualidade de piso e vistas oferecidas justifica plenamente epíteto de «Stelvio das Beiras». Passagem ainda em Alvôco da Serra e Sabugueiro antes do almoço no Eco Resort Vale do Rossim, nas Penhas Douradas, com vista para o lago criado no maior vale glaciar da Europa.

Em dia de estradas fabulosas, proporcionando enorme gozo de condução, passagem pelo Poço do Inferno, interessante formação geológica que forma vistosa cascata, com a queda das águas da ribeira de Leandres a 10 metros de altura, antes de aventura por fora de estrada até ao enorme planalto da Nave de Santo António, apreciando o Vale Glaciar do Zêzere que, com 13 quilómetros de extensão é um dos maiores da Europa. Vistas deslumbrantes que encheram a alma e o estômago, reconfortado pelo lanche em Unhais da Serra, em jeito de preparação para o excelente jantar servido no Clube de Campo da Covilhã – Restaurante Cozinha da Avó, rematado com aventura na noite covilhanense, descobrindo alguns dos mais animados bares.

À Descoberta em terra de descobridores

No domingo, já com tempo mais condizente com época do ano e com a região serrana, o adeus, ou melhor um até já, a Pero da Covilhã com viagem serena e fresca até Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral e de forte presença judaica, cada vez mais atrativa para turistas. Pelo caminho, tempo para uma fotografia na enigmática torre Centum Cellas, localizada em Colmeal da Torre, e que poderá ter sido prisão ou templo, albergaria para descanso dos viajantes ou ‘villa’ romana. Menos dúvidas quanto à origem e função em Sortelha, belíssima vila que manteve inalterada a fisionomia urbana e arquitetónica, rodeada por muralhas defensivas e pelo castelo do século XIII. E onde o Moto Clube da Covilhã – Lobos da Neve voltou a fazer das suas, proporcionando a degustação de mais uma petisquice, com sabores locais, dos queijos aos enchidos passando pelos doces. Aproximava-se do final um excelente fim de semana À Descoberta da Covilhã mas não sem antes visitar o Museu do Queijo, em Peraboa, freguesia onde estão sedeados os Lobos da Neve. Ali, tempo para todas explicações, estórias e curiosidades sobre uma das mais importantes fontes de rendimento da região, e onde, além dos métodos de fabrico ficaram a conhecer-se algumas particularidades do queijo da serra, da melhor forma de o conservar e até degustar. Aperitivo primeiro para o almoço na excelente Quinta da Amoreira, às portas da Covilhã, onde tão bem se estava que as despedidas duraram até meio da tarde. Despedida com agradecimento sentido aos elementos do Moto Clube da Covilhã – Lobos da Neve, Francisco Mota, Patrícia Santos, Orlanda Silva e Andreia Dias além, claro, de Rui Santos, presidente da associação beirã e cuja forma de estar e receber é reveladora do muito que este clube tem para oferecer ao meio motociclístico. Para os sócios e amigos do Moto Clube do Porto, tempo de regressar a casa após um fim de semana que todos catalogaram de excelente, onde tudo se conjugou para mais um hino ao mototurismo, elevando a fasquia para o 6.º À Descoberta.

 

Texto: Moto Clube do Porto